O samba que São Paulo tenta esconder de você
Tem uma coisa que me incomoda quando ouço alguém dizer que São Paulo não tem cultura. Geralmente é alguém que nunca saiu da Paulista, nunca pegou um ônibus na Zona Leste num domingo à tarde, nunca entrou num bar da Mooca com cheiro de cerveja gelada e pandeiro tocando desde as três da tarde.
São Paulo tem samba. Samba de verdade, construído ao longo de décadas por comunidades que chegaram do interior, do Norte, do Nordeste, e que fizeram da música uma forma de resistir e pertencer. Eu descobri isso meio por acaso, numa quarta-feira à noite quando um amigo me arrastou para uma roda em Santo Amaro. Saí de lá com a certeza de que precisava conhecer mais.
Esse post é o resultado de muitas noites pesquisando, perguntando, andando por bairros que eu nunca tinha visitado. Aqui está o que encontrei.
Um pouco de contexto antes de sair de casa
A história do samba paulistano tem um endereço de origem: o antigo Largo da Banana, na Barra Funda. Ali, trabalhadores negros que chegaram ao estado após a abolição transformavam o fim do dia em batuque, entre os trilhos do trem e os armazéns do porto seco. Esse núcleo inicial foi sendo deslocado pela especulação imobiliária, e o samba foi se espalhando pela cidade inteira.
Hoje ele está na Brasilândia, no Grajaú, em Itaquera, na Mooca, em São Mateus. Cada bairro tem a sua cena, o seu ritmo, o seu jeito de tocar. E a maioria dessas rodas acontece longe do circuito turístico tradicional, o que, na prática, significa que você vai precisar se deslocar, planejar um pouco, e provavelmente descobrir partes da cidade que nunca tinha visitado.
Vale muito a pena.
Zona Sul: onde o samba mora na rua
Pagode da 27 — Grajaú
O Grajaú fica na ponta sul da cidade e muita gente de outros bairros nunca foi até lá. Erro. O Pagode da 27 acontece na rua, literalmente: cadeiras na calçada, caixas de som, repertório que mistura samba de raiz com pagode clássico, e um clima de reunião de vizinhos que é difícil de encontrar em outros lugares da cidade.
O que diferencia essa roda de muitas outras é a dimensão comunitária real. Não é discurso: tem atividades para crianças acontecendo ao lado da roda, projetos sociais vinculados ao grupo, e uma frequência fiel que inclui famílias inteiras. Você vai se sentir um pouco intruso nos primeiros dez minutos, e completamente à vontade depois de uma cerveja.
Onde: R. Manuel Guilherme dos Reis, 500, Grajaú.
Como chegar: Metrô Grajaú (Linha 5-Lilás) + caminhada de uns 15 minutos ou uber. Do centro, de carro, leva uns 40 minutos fora do horário de pico.
Quanto custa: Entrada geralmente gratuita ou com couvert simbólico de R$ 10 a R$ 15. Cerveja em torno de R$ 8 a R$ 12 a unidade.
Samba da Vela — Santo Amaro
Esse foi o que me fisgou na primeira vez. Toda segunda-feira, uma vela é acesa no início da roda. Quando ela se apaga, o samba termina. Sem anúncio, sem microfone falando "pessoal, vamos encerrar". A vela apaga e acabou.
O Samba da Vela existe desde 2000 e foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade de São Paulo, o que já diz bastante sobre o peso histórico do encontro. Mas o que mais me chamou atenção é que o espaço funciona como vitrine para compositores apresentarem músicas inéditas. Você pode estar ouvindo a próxima grande música do samba paulistano sem saber.
Onde: Casa de Cultura de Santo Amaro, Praça Dr. Francisco Ferreira Lopes, 434, Santo Amaro.
Como chegar: Metrô Santo Amaro (Linha 5-Lilás). A praça fica a poucos minutos a pé da estação.
Quando: Toda segunda-feira.
Quanto custa: Entrada gratuita na maioria das edições.
Moleque Travesso — Vila Guarani
Esse grupo tem mais de duas décadas de existência e nasceu do futebol de várzea. Não é metáfora: o samba e o campo sempre andaram juntos por aqui, e o espírito de comunidade que você sente numa pelada de domingo é o mesmo que move as rodas do Moleque Travesso.
O clima é de família mesmo. Gente que se conhece há anos, repertório que agrada diferentes gerações, e aquela sensação de que você entrou num espaço que não foi criado para turista, mas que te recebe bem se você aparecer com respeito.
Onde: Av. do Café, 765, Vila Guarani.
Dica: Confirme a programação antes de ir, já que datas podem variar.
Zona Leste: o coração do samba paulistano
Mafuá do Samba — Itaquera
Toda quinta-feira em Itaquera. Se você nunca foi até lá para além de um jogo no Corinthians, está perdendo. O Mafuá do Samba acontece na Arena Megasports e tem um formato que gosto muito: o repertório passeia pelos clássicos sem pressa, compositores da cena paulistana sobem para tocar, e o ambiente é descontraído sem ser bagunçado.
É o tipo de roda onde você pode ir sozinho e sair com amigos novos, porque o povo que frequenta está lá pelo samba mesmo, e isso cria uma abertura natural para conversa.
Onde: Rua Harry Dannenberg, 700, Itaquera.
Como chegar: Metrô Itaquera (Linha 3-Vermelha). Uber ou caminhada a partir daí.
Quando: Toda quinta-feira.
Bar Templo — Alto da Mooca
O Bar Templo não é só uma casa de samba: é um espaço que coloca a cultura afro-brasileira no centro de tudo. As paredes têm imagens de diferentes tradições religiosas, e a programação reflete isso. O Samba de Jorge, uma das rodas mais conhecidas do espaço, homenageia os orixás com músicas de artistas como Clara Nunes e Arlindo Cruz.
É uma experiência diferente de qualquer outra roda da cidade. Você sai de lá tendo entendido um pouco mais sobre as raízes do que estava ouvindo.
Onde: Rua Guaimbé, 322, Alto da Mooca.
Como chegar: A Mooca tem boa cobertura de ônibus a partir do metrô Bresser-Mooca (Linha 3-Vermelha). De carro, estacionamento na rua geralmente disponível.
Dica: Confirme a programação pelo Instagram do espaço antes de ir.
Berço do Samba de São Mateus
O nome é ambicioso e justificado. No final dos anos 1990, um grupo de sambistas da Zona Leste decidiu juntar os músicos espalhados pela região para fortalecer a cena local. O resultado foi um movimento que revelou compositores, gravou com nomes como Beth Carvalho e Almir Guineto, e segue levando o samba da periferia para palcos de toda a cidade.
A roda é itinerante, então você precisa acompanhar a programação para saber onde a próxima edição vai acontecer. Vale o esforço de pesquisar.
Centro e outras regiões: samba sem fronteira de bairro
O samba que acontece na Santa Cecília e adjacências
A região central de São Paulo tem uma cena própria que mistura frequentadores de diferentes bairros. Bares da Santa Cecília, Campos Elísios e Bom Retiro costumam ter programação de samba, especialmente nos fins de semana. O nível de informalidade é alto: às vezes é só um grupo tocando num canto do bar, sem divulgação formal. Fique de olho em grupos de WhatsApp de samba e nas redes sociais dos espaços.
Dicas práticas para aproveitar as rodas
Pesquise antes de ir
A maioria das rodas confirma a programação com poucos dias de antecedência, especialmente as menores. Seguir o Instagram ou o Facebook dos grupos é essencial. Já cheguei em dois lugares diferentes que não tinham roda naquele dia por falta de pesquisa prévia.
Chegue na hora certa
Nas rodas de bairro, chegar no horário divulgado ou até um pouco antes garante lugar sentado. As mais conhecidas enchem rápido, especialmente em datas especiais como aniversários dos grupos ou feriados prolongados.
Leve dinheiro em espécie
Especialmente nas rodas de rua ou em espaços menores, máquinas de cartão falham ou não existem. Ter notas facilita muito, tanto para consumo quanto para colaborar com a gorjeta dos músicos, quando houver balaio passando.
Respeite o espaço
Essas rodas existem há décadas e são sustentadas por comunidades que as construíram. Chegar como visitante exige postura de quem está sendo recebido, não de quem está consumindo um produto. Ouça mais do que fala, pergunte se tiver dúvida, e trate os músicos com o respeito que eles merecem.
Melhor época para ir
São Paulo tem rodas o ano inteiro, mas o período entre abril e outubro costuma ter programação mais intensa, já que o calor extremo do verão pode reduzir as rodas de rua. Janeiro e fevereiro, com o carnaval se aproximando, também têm pico de atividade. Feriados prolongados são ótimos para explorar várias rodas num mesmo fim de semana.
Por onde começar?
Se você nunca foi a uma roda de samba em São Paulo e não sabe por onde começar, minha sugestão é o Samba da Vela em Santo Amaro numa segunda-feira. É acessível pelo metrô, tem entrada gratuita, e o formato da vela cria uma atmosfera que você não vai esquecer. Depois que você pegar o gosto, fica fácil se aventurar pelos outros bairros.
São Paulo é uma cidade que guarda suas melhores coisas de quem não tem paciência para procurar. O samba é uma delas.