Punta del Este virou outro destino — e eu demorei para perceber isso
Por muito tempo, Punta del Este ficou na minha cabeça como aquele lugar de argentinos gritando na praia, cassinos barulhentos e um glamour meio anos 90 que nunca me atraiu muito. Fui pela primeira vez levado por amigos, sem grandes expectativas, e fiquei surpreso com o quanto a cidade tinha mudado — ou talvez o quanto eu estava olhando para o lugar errado.
A Punta de hoje tem pouco a ver com essa imagem. Especialmente se você sair da península principal e explorar os arredores de Maldonado, José Ignacio e as estradas que cortam vinhedos e campos abertos. É um destino que respira em outro ritmo, e isso por si só já vale a viagem.
Por que Punta del Este deixou de ser só verão
Durante décadas, o destino funcionava numa lógica muito simples: abria em dezembro, explodia em janeiro e virava uma cidade fantasma depois do Carnaval. Quem chegava fora dessa janela encontrava restaurantes fechados, praias vazias e uma sensação de "você veio na época errada".
Isso está mudando de forma bem perceptível. A cidade ganhou moradores permanentes — muitos brasileiros, europeus e argentinos que buscaram qualidade de vida, segurança e infraestrutura no Uruguai. Com essa população fixa vieram cafeterias de especialidade abertas o ano todo, mercados gastronômicos, vinícolas que recebem visitantes em qualquer época e uma cena cultural que não depende mais da temporada.
Fui uma vez em março, logo depois do verão, e a experiência foi completamente diferente das minhas idas anteriores em janeiro. Menos caos, preços mais razoáveis, restaurantes com tempo para te atender direito. Se você tem flexibilidade, março e abril são meses excelentes para visitar.
Vinícolas perto de Punta del Este que valem o desvio
Esse foi o lado que mais me surpreendeu. O Uruguai tem uma cena vinícola séria — e parte dela fica a menos de uma hora de Punta del Este. Se você nunca ouviu falar do Tannat uruguaio, prepare-se para gostar.
Bodega Las Espinas
Fica em Punta Negra, a uns 30 minutos de carro do centro de Punta del Este. É um projeto da família Bouza, conhecida pela Bodega Bouza de Montevidéu, mas com uma proposta bem diferente: a vinícola foi construída sobre um terreno rochoso, elevada, sem escavar o solo, o que já diz muito sobre a filosofia do lugar.
A visita guiada passa pelos vinhedos na encosta — o vento frio que vem da costa é constante e te faz entender por que os vinhos dali têm um perfil mais tenso, mineral. O tour termina com degustação dentro de um espaço que enquadra a paisagem de um jeito quase cinematográfico. Você sai de lá com pelo menos duas garrafas na bolsa, pode acreditar.
Vale reservar com antecedência. Eles não recebem grupos grandes e a experiência é bem personalizada. O valor da visita com degustação fica em torno de USD 30 a USD 45 por pessoa, dependendo dos vinhos escolhidos.
Garzon e os produtores do interior
Quem está disposto a ir um pouco mais longe — uns 50 minutos de carro — chega ao vilarejo de Garzon, que merece um post inteiro só para ele. A região concentra algumas bodegas menores, produtores de azeite e o restaurante do Francis Mallmann, que fica dentro de uma pousada boutique. Garzon tem essa energia de "lugar que sabe que é especial mas não precisa gritar isso", que é exatamente o que eu mais gosto em destinos assim.
Onde comer em Punta del Este (de verdade)
A gastronomia da região melhorou muito nos últimos anos. Saiu aquela pegada de restaurante de hotel com cardápio genérico e entrou uma nova geração de cozinheiros trabalhando com produto local, especialmente frutos do mar e carnes uruguaias.
José Ignacio: o coração gastronômico da região
José Ignacio fica a 35 minutos de Punta del Este e é onde a cena mais interessante acontece. O vilarejo tem menos de 300 habitantes fixos, mas uma concentração de restaurantes e pousadas que não faz sentido para o tamanho do lugar — e isso é ótimo para quem visita.
O Parador La Huella é o mais famoso, com os pés na areia e uma brasa permanente que produz peixes inteiros, lulas e frango de uma forma muito específica deles. Chega cedo ou reserve — mesmo fora do verão, loteia no almoço. Uma refeição para dois com vinho fica entre USD 80 e USD 120.
Para algo mais simples e igualmente bom, o Café Bacacay no centro de José Ignacio serve sanduíches, sopas e tortas que parecem feitos por alguém que realmente gosta de cozinhar. Ótimo para o almoço sem pretensão.
De volta à península: o que funciona no centro
No centro de Punta del Este, o Bottega Tabare é uma boa pedida para massas artesanais e vinhos uruguaios num ambiente sem frescura. Para frutos do mar, o Lo de Tere no Mercado del Puerto tem uma simplicidade que eu aprecio muito — nada de menu de degustação, só peixe fresco bem grelhado.
Onde ficar: do boutique ao campo
A oferta de hospedagem em Punta del Este cresceu bastante além dos grandes hotéis da orla. Dependendo do que você busca, o melhor pode nem estar na península.
Fasano Las Piedras
Fica a uns 25 minutos do centro, em meio a um campo aberto que parece não ter fim. É a operação uruguaia do grupo Fasano, com aquela estética característica de madeira escura, pedra, couro e serviço discreto. As cabanas estão espalhadas pelo terreno, o que dá uma privacidade que hotel convencional nenhum consegue. Não é barato — as diárias começam em torno de USD 600 na baixa temporada — mas se for uma viagem especial, vale considerar.
Pousadas boutique em José Ignacio
Para quem quer ficar em José Ignacio, os preços são variados. Tem opções mais acessíveis como o Posada del Faro, com diárias a partir de USD 150 na baixa temporada, e propriedades mais exclusivas que chegam a USD 500 ou mais. O interessante é que em março e abril, muitas pousadas negociam estadias mais longas com desconto.
O que vem por aí em 2026
Dois grandes empreendimentos estão em construção na área e prometem mudar mais uma vez o perfil do destino. O Grupo Cipriani está transformando o terreno do histórico Hotel San Rafael num complexo com três torres residenciais, hotel, spa e restaurantes — incluindo o famoso Harry's Bar. E o Grupo Fasano adquiriu o Enjoy Punta del Este para criar um projeto de uso misto com hotelaria, residências e gastronomia, no estilo do que o grupo faz no Cidade Jardim em São Paulo. Ambos prometem abrir em dezembro de 2026. Será interessante acompanhar como isso vai alterar a dinâmica da cidade.
Logística para chegar e se locomover
O aeroporto de Punta del Este (Capitán de Corbeta Carlos A. Curbelo) fica em Laguna del Sauce, a uns 20 minutos do centro. Voos diretos de São Paulo e Rio de Janeiro operam principalmente no verão, com algumas rotas mantidas na baixa temporada — vale checar LATAM e Azul, que têm operado mais frequências para o destino.
Fora do verão, a alternativa mais comum é voar para Montevidéu e pegar um carro alugado ou transfer. A distância é de 140 km, e com carro você ganha liberdade para explorar as vinícolas e José Ignacio no seu tempo. Aluguel de carro em Montevidéu sai em torno de USD 50 a USD 80 por dia, dependendo da categoria e época.
Uber funciona em Punta del Este e arredores, mas a cobertura fora do centro pode ser irregular. Para explorar a região sem estresse, ter carro próprio faz diferença.
Quanto custa uma viagem a Punta del Este
Punta del Este tem fama de caro, e no verão essa fama é merecida. Mas fora da alta temporada o custo muda bastante. Uma estimativa por pessoa para 5 dias, com hospedagem mid-range, refeições em restaurantes bons e passeios:
- Hospedagem (por noite, para dois): USD 150 a USD 300
- Refeições: USD 30 a USD 60 por pessoa por dia
- Visita a vinícola: USD 30 a USD 50 por pessoa
- Transporte local e combustível: USD 20 a USD 40 por dia
Se você for em março ou abril, vai encontrar as mesmas experiências com preços bem menores do que em janeiro — e com muito mais tranquilidade.
Erros que eu cometi (e você não precisa cometer)
Na minha primeira visita, fiquei restrito à peninsula de Punta del Este e senti que o destino não tinha muito a oferecer além de praia e shopping. O erro foi não ir para José Ignacio, não reservar uma visita a alguma bodega, não alugar carro. Punta del Este como destino completo precisa de mobilidade — sem carro, você perde a melhor parte.
Outro erro clássico: subestimar o vento e a variação de temperatura. Mesmo no verão, as noites podem esfriar bastante. Em março e abril, leve uma jaqueta boa — o vento que vem do Atlântico é sério.
Vale ir? Minha opinião honesta
Punta del Este não é mais só para quem quer cassino e balada. Mas também não é o lugar mais barato da América do Sul. O que ela entrega de melhor hoje é uma combinação rara: boa gastronomia, vinhos interessantes, natureza preservada, segurança e uma infraestrutura que poucos destinos sul-americanos têm. Se você for com essa expectativa — e não com a de Ibiza ou Cancún — vai sair satisfeito.
E se for em março, me fala como foi. Acho que você vai gostar mais do que espera.