Agosto não é o mês do desgosto — é o mês de quem sabe se planejar
Durante anos eu ouvi aquela história de que agosto é um mês ruim para viajar. Férias acabaram, faz frio, o bolso ainda está pesado depois do julho. Mas na prática, cada vez que eu me animei a viajar em agosto, fui surpreendido positivamente. Os destinos estão menos cheios, os preços caem e a programação cultural costuma estar no auge. Em 2026 então, a agenda está especialmente interessante — tem coisa boa no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. Vou contar o que encontrei pesquisando (e em alguns casos, vivendo) cada um desses destinos.
Brasil: muito além do frio de agosto
Campos do Jordão e as cerejeiras que poucas pessoas conhecem de verdade
Quando a maioria das pessoas pensa em Campos do Jordão, pensa em frio, fondue e final de semana lotado. Mas em agosto tem um evento que eu considero um dos mais bonitos do calendário brasileiro: a Festa da Cerejeira no Parque da Cerejeira. São cerca de 800 sakuras que florescem durante o inverno, e o parque transforma a visita em algo bem mais completo do que simplesmente andar entre árvores.
A programação inclui apresentações de taiko (tambores japoneses), danças tradicionais, artes marciais, concurso de cosplay e oficinas culinárias conduzidas por chefs da Serra da Mantiqueira e do Vale do Paraíba. Tem também o chamado Túnel dos Desejos, onde você escreve mensagens em pequenas placas de madeira — uma referência ao ritual japonês dos tanzaku.
Informações práticas:
- Datas em 2026: 1, 2, 8, 9, 15 e 16 de agosto, das 9h às 16h
- Endereço: Avenida Tassaburo Yamaguchi, 2.173, Vila Albertina, Campos do Jordão
- Ingressos: R$ 60 (inteira), R$ 30 para moradores locais e idosos. Crianças até 6 anos e pessoas acima de 80 anos entram de graça
- Estacionamento: R$ 40 por carro, R$ 80 por van
- Compra antecipada: pela Sympla ou na bilheteria do parque
Um detalhe importante: a florada das cerejeiras depende do clima. Pode ser que num fim de semana as flores estejam abertas e no outro já tenham caído. Por isso vale checar o perfil @parque.da.cerejeira nas redes sociais antes de sair de casa. Chegar cedo também ajuda — as oficinas têm vagas limitadas a 30 pessoas e a senha é retirada presencialmente no local.
Para hospedagem, uma opção diferente na região é o Bendito Cacao Resort & Spa, da marca Cacau Show, que mistura estrutura completa de lazer com uma temática de chocolate que agrada bastante quem viaja com crianças (e adultos que não se envergonham de gostar de chocolate, como eu).
João Rock em Ribeirão Preto: um festival que resiste ao tempo
O Festival João Rock chega à 23ª edição em 2026 e continua sendo um dos eventos mais queridos da música brasileira. São mais de 30 atrações distribuídas em quatro palcos durante 12 horas — o João Rock, o Brasil, o Aquarela e o Fortalecendo a Cena. A expectativa é de 65 mil pessoas, muitas chegando de ônibus fretado de diferentes estados.
O lineup reúne nomes como Zé Ramalho, Alceu Valença, Os Paralamas do Sucesso, CPM 22, BaianaSystem, Luedji Luna, Marina Sena, Criolo e Djonga — uma mistura que dificilmente você encontra numa mesma grade em outro festival. O evento acontece no Parque Permanente de Exposições de Ribeirão Preto no dia 1º de agosto de 2026 (sábado), com início às 14h.
Os ingressos para esta edição já estão esgotados, mas fica o registro para quem quer se planejar para 2027. E se você já garantiu o seu: organize transporte e hospedagem com antecedência, porque Ribeirão Preto enche no dia do evento. Hotéis e pousadas na região costumam dobrar de preço perto da data.
Tiradentes: gastronomia com história no roteiro
Tiradentes, em Minas Gerais, é daqueles destinos que funcionam bem durante o ano todo, mas agosto tem uma programação gastronômica especial que transforma a visita. A cidade histórica combina casarões coloniais bem preservados com uma cena de restaurantes surpreendentemente boa para o tamanho do lugar.
O centro histórico é compacto e dá pra explorar a pé sem pressa. O que a maioria das pessoas não sabe é que é possível ir de trem a partir de São João del-Rei — uma viagem de cerca de 35 minutos numa composição histórica que funciona às sextas, sábados, domingos e feriados. Já fiz esse trajeto e recomendo muito, especialmente com crianças.
Gramado e o Festival de Cinema
O Festival de Cinema de Gramado é um dos mais tradicionais do Brasil e acontece anualmente em agosto. Para quem gosta de cinema, é uma oportunidade de assistir a filmes em pré-estreia, participar de debates e ter encontros inesperados com diretores e atores nas ruas da cidade.
Um aviso honesto: Gramado em agosto é cara. A cidade já não é barata em nenhuma época, e com o festival os preços sobem mais ainda. Se o orçamento for limitado, vale considerar se hospedar em Canela (a poucos quilômetros) e ir a Gramado só durante o dia. A diferença de preço de hospedagem entre as duas cidades costuma ser significativa.
Bonito e Curitiba: inverno com programação cultural
Bonito, no Mato Grosso do Sul, mantém a programação ativa durante o inverno e agosto é um bom mês para visitar — a visibilidade na água é excelente e o movimento é menor do que em dezembro e janeiro. As atrações como o Rio da Prata e o Buraco das Araras funcionam normalmente, e o agendamento antecipado continua sendo obrigatório para as atrações aquáticas.
Curitiba aproveita o inverno para uma programação cultural intensa, com teatros, exposições e eventos ao ar livre no Jardim Botânico e no Parque Barigui. A cidade tem uma infraestrutura turística boa e é um destino que eu recomendo especialmente para quem ainda não foi — é diferente do que a maioria das pessoas imagina.
Estados Unidos: festivais de verão em agosto
Chicago: música e lago Michigan
Se você estiver nos Estados Unidos em agosto, Chicago merece atenção. A cidade vive seus festivais de verão em pleno vapor, com eventos de música distribuídos pela orla do Lago Michigan. O Lollapalooza costuma acontecer no início de agosto no Grant Park — um festival enorme, com palcos simultâneos e um lineup que mistura rock, pop, eletrônico e hip hop.
Além do Lollapalooza, Chicago tem eventos menores espalhados pelos bairros ao longo do mês. O Chicago SummerDance é gratuito e acontece no Grant Park com aulas e apresentações de dança em estilos variados — uma das experiências mais genuínas que você pode ter na cidade sem gastar nada.
Dica logística: o metrô de Chicago (chamado de "L") é eficiente e cobre bem os principais pontos. Um passe diário custa cerca de US$ 10 e vale muito mais do que ficar dependendo de Uber durante o festival, quando os preços disparam.
Nova York: ruas abertas e verão gratuito
Nova York em agosto tem um programa chamado Open Streets, onde algumas ruas são fechadas para carros e abertas para pedestres, ciclistas e atividades culturais. É uma das formas mais gostosas de explorar bairros como o Queens, o Bronx e o Brooklyn sem a pressão do trânsito.
O programa SummerStage no Central Park oferece shows gratuitos ao longo do verão, incluindo agosto. A qualidade das atrações é boa e o ambiente de picnic no parque é um dos programas mais agradáveis que já fiz na cidade.
Miami: menus especiais fora da alta temporada
Miami em agosto é quente e úmido — isso afasta muitos turistas e cria uma oportunidade interessante. Vários restaurantes participam de eventos de gastronomia com menus especiais, e os preços de hospedagem caem bastante em comparação com o inverno americano, que é a alta temporada da cidade.
Se você tolera calor e aguaceiros ocasionais (que em Miami costumam ser rápidos), agosto pode ser uma boa janela para conhecer a cidade gastando menos.
Europa: Praga e o circo contemporâneo
Praga em agosto é uma cidade diferente da Praga de dezembro. O frio some, os turistas aumentam, mas a programação cultural também fica mais intensa. A cidade sedia eventos de circo contemporâneo durante o verão europeu — espetáculos que misturam acrobacia, dança e teatro em locais ao ar livre e dentro de tendas montadas em praças históricas.
Para quem viaja pela Europa em agosto e passa por Praga, vale reservar pelo menos três dias. A cidade é compacta e dá pra explorar o centro histórico a pé, mas os bairros menos turísticos — como o Žižkov e o Vinohrady — são onde você vai encontrar a vida local de verdade, com bares, mercados e restaurantes sem cardápio traduzido.
Uma dica de economia: o transporte público de Praga é excelente e cobre toda a cidade por um preço muito abaixo do que você pagaria em Lisboa ou Paris. Um bilhete de 24 horas custa cerca de 5 euros e cobre metrô, bonde e ônibus.
Dicas gerais para viajar em agosto
- Reserve com antecedência para eventos específicos: festivais de música e eventos culturais com ingresso limitado esgotam meses antes. Não deixe pra última hora.
- Hospedagem fora do centro pode economizar muito: em cidades como Gramado, Miami e Nova York, a diferença de preço entre ficar no epicentro e a alguns quilômetros de distância é enorme.
- Agosto é baixa temporada no hemisfério norte: o que significa que destinos como Lisboa, Barcelona e Roma estão mais movimentados (é pleno verão europeu), mas destinos como os EUA têm preços variados dependendo da cidade.
- No Brasil, agosto é seco na maior parte do país: ótimo para destinos ao ar livre. Mas leve protetor solar e hidratante — o ar fica bem seco, especialmente em São Paulo e no cerrado.
- Confira a programação local: muitos eventos menores, gratuitos ou de baixo custo, não aparecem nas grandes plataformas de viagem. Prefeituras e secretarias de cultura costumam divulgar agendas completas nos sites oficiais.
Vale a pena viajar em agosto?
Sim. Sem a menor dúvida. Agosto tem uma combinação que eu acho difícil de bater: clima seco no Brasil, programação cultural intensa, preços menores do que em julho e destinos menos saturados. O segredo é se planejar — porque quem descobre isso antes dos outros já garante os ingressos, as hospedagens e chega sem surpresa.
Se você está em cima do muro sobre quando viajar, agosto é um bom argumento para sair do lugar.