Quando um jantar vira colaboração entre países
Tem uma coisa que eu aprendi viajando: a melhor forma de entender um país é pela comida. E quando dois países se encontram numa mesma cozinha, numa mesma noite, o resultado costuma ser bem mais interessante do que qualquer prato executado em isolamento.
Foi pensando nisso que fui pesquisar mais sobre o projeto Segundas no Maní, uma iniciativa do restaurante Maní, no Jardim Paulistano, em São Paulo. A proposta é simples e, ao mesmo tempo, muito bem pensada: toda edição, os chefs da casa convidam um cozinheiro internacional para criar juntos um menu exclusivo. Não é aquele tipo de jantar de gala frio e intimidador. É mais uma conversa de cozinha que termina no seu prato.
O Maní além do hype
O Maní existe desde 2006 e carrega o nome de Helena Rizzo, que já foi eleita a melhor chef feminina da América Latina pelo World’s 50 Best. Mas falar só isso seria reduzir um lugar que, na prática, funciona com uma consistência rara na cena paulistana.
O restaurante fica na Rua Joaquim Antunes, 210, num casarão que mistura jardim, ambiente íntimo e aquela atmosfera que faz você desacelerar logo na entrada. Não é o tipo de lugar onde você vai com pressa.
O que me interessa no Maní vai além do cardápio fixo. É justamente essa curadoria de encontros que eles vêm construindo. Cada edição do Segundas no Maní tem uma lógica própria: ingredientes da estação, um chef com história para contar e um menu que só existe naquela noite.
A cozinha argentina que não é o que você pensa
Quando ouço "gastronomia argentina", meu primeiro pensamento costuma ser churrasco, mate e alfajor. Mas Buenos Aires tem uma cena gastronômica muito mais complexa do que esse recorte turístico.
Os bodegones são um bom exemplo disso. São aqueles restaurantes de bairro, informais, com mesas de toalha quadriculada e cardápios manuscritos, onde você come massa feita na casa, milanesa, puchero. Lugares que guardam toda a influência italiana e espanhola que chegou com os imigrantes no fim do século XIX e começo do XX.
O chef Facundo Kelemen, à frente do Mengano em Buenos Aires, trabalha justamente com esse material. Ele revisita os bodegones portenhos com uma abordagem contemporânea, sem perder a essência afetiva desses lugares. Formado em Direito antes de migrar para a gastronomia, Facundo passou por cozinhas como a do Tegui, de Germán Martitegui — um dos chefs mais relevantes da Argentina —, e pelos nova-iorquinos Estela e Atera, antes de abrir seu próprio restaurante. Mais recentemente, inaugurou o Chuchú, dentro do Museu Nacional Ferroviário de Buenos Aires, que por si só já é um destino curioso na cidade.
Por que esse cruzamento faz sentido
O que me parece mais interessante nessa proposta de jantar a seis mãos é o recorte temático: as conexões entre a cozinha brasileira e a argentina, especialmente pelas influências italiana e espanhola que moldaram os dois países.
São Paulo é um capítulo inteiro nessa história. O bairro do Brás, a Mooca, o Bixiga — toda aquela herança italiana que virou pizza paulistana, que virou macarrão de domingo, que hoje aparece reinterpretado em restaurantes como o Maní. A Argentina teve um processo parecido, só que com Buenos Aires como epicentro.
Quando você coloca esses dois repertórios numa mesma cozinha, com chefs que entendem de onde vieram esses sabores, o resultado tende a ser algo que tem ao mesmo tempo familiaridade e surpresa. Você reconhece o ingrediente, mas não o preparo. Você identifica a referência, mas não esperava aquela combinação.
O que esperar de um jantar assim
Menus de degustação com oito etapas podem parecer intimidadores para quem não está acostumado. Mas deixa eu quebrar essa percepção.
Na prática, cada etapa costuma ser uma porção menor do que um prato convencional. A ideia não é você sair empanturrado depois da quarta etapa. É manter o interesse, a conversa, o ritmo. Você come devagar, fala sobre o que está no prato, descansa entre um curso e outro.
O valor do menu fica em torno de R$ 890 por pessoa, com harmonização de bebidas à parte por cerca de R$ 490. Não é barato, mas quando você pensa que está pagando por uma noite que não se repete — com um menu criado especificamente para aquela data, por três chefs trabalhando juntos —, o custo por experiência muda de perspectiva.
Para quem quer participar sem a harmonização, é possível escolher bebidas avulsas do cardápio. E se você for com alguém que bebe pouco, vale consultar o restaurante sobre opções sem álcool.
Dicas práticas para quem vai
- Reserve com antecedência: jantares como esse esgotam rápido. O projeto aceita reservas pelo site do Maní, por WhatsApp (11) 97473-8994 ou pelo e-mail [email protected].
- Chegue no horário: menus de degustação costumam começar no horário marcado para que todos estejam no mesmo ritmo de serviço. Atrasar compromete a experiência.
- Informe restrições alimentares na reserva: não deixe para dizer na hora. Cozinhas que trabalham com menus fechados precisam de tempo para adaptar.
- Vá com tempo: um menu de oito etapas dura facilmente duas horas e meia a três horas. Não marque nada depois.
- Estacionamento: o Jardim Paulistano tem poucos bolsões próximos. Se for de carro, considere serviço de valet ou chegue mais cedo para encontrar vaga na rua.
Buenos Aires também vale o roteiro gastronômico
Se o encontro entre esses dois chefs despertou curiosidade sobre a cena de Buenos Aires, deixa eu te dar um mapa rápido para quando você for à cidade.
O Mengano, do Facundo Kelemen, está no bairro de Palermo e é exatamente o tipo de lugar que a gente tende a subestimar na foto do Google e que surpreende muito quando você está sentado lá dentro. O menu funciona com pratos para compartilhar, inspirados nos bodegones, mas com uma execução que claramente vem de alguém que passou por cozinhas sérias.
O Don Julio, no mesmo bairro, é referência de parrilla de alta qualidade, com fila quase sempre. Já o Tegui, de Germán Martitegui — onde Facundo trabalhou —, é um dos endereços mais sólidos da cena contemporânea portenha, em San Telmo.
Para o dia a dia em Buenos Aires, os bodegones originais ainda existem e são baratos. Uma refeição completa, com entrada, prato principal e sobremesa, custa entre 8 e 15 dólares em lugares como o bairro de Almagro ou La Boca. É a melhor forma de entender de onde veio tudo isso antes de ir para os restaurantes contemporâneos.
Por que acompanhar projetos como o Segundas no Maní
Existe uma tendência crescente de restaurantes que funcionam como plataformas de encontro, não só como locais de refeição. O Maní é um bom exemplo disso em São Paulo. O projeto de jantares colaborativos não é apenas uma estratégia comercial — é uma forma de manter a cozinha viva, em movimento, em contato com o que está acontecendo em outras cidades.
Para quem gosta de gastronomia de verdade — não aquela de foto de Instagram, mas a que conta histórias sobre de onde viemos e o que comemos —, acompanhar a programação do Segundas no Maní é um bom investimento de atenção.
Você pode monitorar as próximas edições pelo site do restaurante ou pelas redes sociais do Maní. Cada jantar tem uma data única, um menu que não se repete e, quase sempre, um chef com um percurso que vale conhecer antes de chegar à mesa.
Às vezes a melhor viagem não começa no aeroporto. Começa num restaurante de São Paulo, com um prato que cheira a Buenos Aires.